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quinta-feira, 19 de julho de 2012
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Apologia da utopia
A função educacional da utopia
A consciência do limite não coincide
com o limite da minha consciência.
A. D. Carvalho
Uma retrospectiva sobre o modo como as ciências têm evoluído, nomeadamente das que têm por objecto de estudo o Homem, vieram alterar a nossa concepção, não só do humano, mas também, e consecutivamente, do conhecimento, da educação e do mundo. Isto permite-nos considerar actualmente a educação como um projecto antropológico amplo, e não antropicamente fechado[1], em que o homem, enquanto sujeito e produtor de conhecimento, tem um papel predominantemente activo e fundante, ao contrário da passividade que caracterizava a escola tradicional.
Tais transformações permitem que novas metodologias de ensino/aprendizagem sejam concebidas de modo a possibilitar ao homem a sua evolução através da educação.
A consciência que actualmente temos da defectibilidade do ser humano, embora se revele uma imperfeição, permite-nos simultaneamente o desejo de rumar a uma perfectibilidade cada vez maior. É esta faculdade de aperfeiçoamento, como nos diz Rousseau, que nos distingue dos outros animais, «faculdade que, com a ajuda das circunstâncias, desenvolve, sucessivamente, todas as outras e reside entre nós quer na espécie, quer no indivíduo, ao passo que um animal é, ao fim de alguns meses, o que será toda a vida e a sua espécie, ao fim de mil anos, o que era no primeiro desses mil anos»[2]. Graças a esta faculdade, que actua ao nível físico, intelectual, afectivo e espiritual, quer o indivíduo, quer a espécie, se vão desenvolvendo, o que nos remete para a possibilidade da educabilidade – uma disposição psicológica para a aprendizagem – através da qual nos vamos construindo, isto é, vamos sendo.
Esta abertura e incompletude do ser humano colocam-no em devir, fazendo a exploração de possíveis, ultrapassando a limitação do presente e originando formas alternativas à contingência. O Homem é, voltando a Rousseau, o único ser livre de aquiescer, ou de resistir, e é, sobretudo, na consciência desta liberdade que se mostra a espiritualidade da sua alma[3], e o homem quer, ao contrário dos outros animais que, simplesmente, adaptam as suas necessidades ao que a natureza lhes proporciona e ao que dela podem usufruir. O homem, ao contrário, molda a natureza às suas necessidades, aos seus impulsos, aos seus desejos, porque aspira, porque quer, porque se sente insatisfeito e incompleto, com vontade de progredir.
Reconhecemos a função educacional da utopia, porque também ela resulta da inadaptação do homem, do desconforto e descontentamento em relação à ordem que o circunda, e que, exaurindo da sua capacidade de aperfeiçoamento, desemboca na educabilidade, categoria sem a qual o desenvolvimento não seria possível.
A utopia é, tal como a educabilidade, uma especificidade exclusivamente humana, que abre um leque de mundos possíveis, de novos sentidos a serem explorados, e as alternativas que propõe dão-nos, acima de tudo, a certeza de que o mundo em que vivemos não tem que ser necessariamente do modo que é, pois há várias possibilidades em aberto, e, porque não, realizáveis, se a vontade humana desejar.
Como diz Ricouer, a «utopia introduz a dúvida e abala o óbvio»[4]. A ordem tida como certa parece estranha e contingente, e «há uma experiência da contingência da ordem»[5], que nos leva a por em causa o que existe no momento em que idealizamos ou lemos uma utopia. Ou seja, a utopia que deste modo terá origem na repulsa das circunstâncias que nos rodeiam – como foi no caso de Platão – permite, por isso mesmo, por em causa o mundo actual e, embora ela possa não ser realizável, permite, contudo, experimentar alternativas possíveis à contingência que nos rodeia.
A valor principal das utopias reside, para nós, e concordando mais uma vez com Ricouer, no facto de elas serem um «recurso, uma arma da crítica»[6], um acto de esperança num mundo melhor, e deixando um pouco de lado a sua ou não exequibilidade, concordamos que a utopia «seja melhor definida pela sua pretensão de fragmentar a ordem existente, do que pela sua incongruência»[7], abalando aquilo que nos parecia, até então, óbvio e aceitável.
A utopia revela-se para nós uma das possibilidades de nos libertar do sono dogmático em que, muitas vezes, estamos imergidos, embora por vezes inconscientemente, e do qual, só nos conseguiremos libertar, questionando o presente – pondo em marcha o espírito crítico e reflexivo para o qual todos os seres humanos devem ser educados – e explorando novos meios, novos caminhos, possibilidades em aberto até então desconhecidas ou camufladas. Afinal, contra o determinismo absoluto, ousamos afirmar que a realidade em que vivemos é apenas uma das possibilidades entre muitas outras, passíveis de concretização.
Consideramos útil assinalar e aceitar a distinção feita por Bloch entre utopia abstracta e utopia concreta. Na obra «Le Principe Espérance» o autor defende que a utopia concreta representa o «ponto de contacto entre o sonho e a vida, sem o qual o sonho não pode engendrar mais do que utopias abstractas e a vida não pode ser senão banal»[8], remetendo a função utópica para o possível real e superando os limites do dado quer da nossa natureza, quer do mundo exterior. A utopia abstracta será aquela que não é suportada por nenhum sujeito sólido, e não se reporta a nenhum real possível, e distingue-se da concreta que nunca está concluída nem se fica num sistema. A sua função consiste na abertura do presente à actividade criadora.
A maior virtude da utopia reside, quanto a nós, na ponte que ela estabelece entre o sonho e a vida, entre a vida e o sonho, possibilitando uma articulação entre os dois, o mesmo será dizer, uma articulação entre o real e o possível, e vice-versa. O ser é, na utopia, assumido como um ainda-não-ser[9], ou seja, «o ser passa a integrar o défice proporcionado pela sua própria interpelação».
Sem dúvida que nem todos os nossos sonhos são realizáveis, e, do mesmo modo, também as utopias poderão não o ser. Mas tanto os sonhos, como as utopias, nos permitem voar mais alto, ir mais longe, e assim a utopia se transforma num dos caminhos possíveis, e, quanto a nós, positivo, para que o Homem projecte o seu percurso num futuro em aberto, a construir, tendo por base uma expectativa marcadamente antropológica – o aperfeiçoamento da condição humana.
E tudo isto só é possível porque, de facto, a consciência do limite não coincide com o limite da nossa consciência, pois é, precisamente porque conhecemos as nossas limitações, que tentamos ultrapassá-las em busca dum progresso, no porvir. O limite é um espaço de circunscrição, mas simultaneamente de abertura, que deve ser encarado, não como fechamento, mas como fronteira, como abertura ao que está para lá, ao horizonte. O limite é um espaço habitável, que deve ser considerado simultaneamente com o limiar, sendo o limite o fim, e o limiar o começo.
Alice Mota.
[1] Cf. CARVALHO, Adalberto Dias de, A Contemporaneidade como Utopia, Ed. Afrontamento, p. 134.
[2] In ROUSSEAU, Jean-Jacques, Discurso Sobre a Origem e os fundamentos da Desigualdade entre os Homens, Didáctica Ed., p. 38.
[3] Idem, ibidem, p. 38.[2] In ROUSSEAU, Jean-Jacques, Discurso Sobre a Origem e os fundamentos da Desigualdade entre os Homens, Didáctica Ed., p. 38.
[4] In RICOEUR, Paul, Ideologia e Utopia, Ed. 70, p. 488.
[5] Idem, ibidem, p. 488.
[6] Idem, ibidem, p. 488.
[7] Idem, ibidem, p. 467.
[8] Cf. CARVALHO, Adalberto Dias de, A Contemporaneidade como Utopia, Ed. Afrontamento, p. 160.
[9] Idem, A Educação e os Limites dos Direitos Humanos, Porto Ed., p. 39.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Há metafísica bastante em não pensar em nada
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.
Fernando Pessoa, Poesia de Alberto Caeiro, Assírio e Alvim, Lisboa, 2006, pp. 29-32.
terça-feira, 6 de julho de 2010
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