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domingo, 14 de junho de 2015

Num dia de muita chuva...

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Fernando Pessoa








terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A melhor companhia


Ouvi falar de um homem perdido na floresta e a morrer de fome e de exaustão ao pé de uma árvore e cuja solidão era aliviada pelas visões grotescas com que, devido à fraqueza física, a sua imaginação doente o rodeava, e que ele acreditava serem reais. Assim também, graças à saúde e à força física e mental, podemos sentir-nos continuamente animados por uma companhia semelhante, se bem que mais normal e natural, e chegarmos à conclusão de que nunca estamos sós.

Henry David Thoreau, in 'Walden'

segunda-feira, 8 de março de 2010

Renúncia e amargura

Não queira coisas impossíveis - dizia-me hoje uma mulherzinha que andava na serra à lenha, quando eu tentava subir uma penedia inacessível.
- Quero, quero! - respondi-lhe, obstinado.
Ela então olhou-me com uns doces olhos de ovelha tosquiada pela vida, e sorriu melancolicamente. Depois, pôs o molho à cabeça, e partiu.
E eu fiquei-me o resto da tarde ali, a ver cair o sol e a pensar em que sonho irrealizável teria aquela alma simples posto um dia o desejo, para com a sua desilusão formular uma frase tão carregada de renúncia e amargura.
Miguel Torga, Gerês, 23 de Agosto de 1942, Diário II.