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sábado, 15 de abril de 2017

O paraíso imaginado

Creio que podia regressar e viver com os animais, são tão plácidos e autónomos,
Fico a olhar para eles longamente
Não se impacientam, não se lamentam da sua condição,
Não jazem acordados no escuro a chorar os pecados,
Não me maçam com discussões sobre os seus deveres para com Deus,
Nenhum está descontente, nenhum sofre da mania de possuir coisas,
Nenhum se ajoelha perante outro, nem ante os antepassados que viveram há milénios,
Nenhum é respeitável ou infeliz à face da terra.
Revelam a sua relação comigo e aceito-a.
Trazem-me sinais de mim, provam claramente que os contêm em si mesmos.
Pergunto-me onde terão adquirido esses sinais,
Será que em tempos remotos por aí passei deixando-os negligentemente cair?
Walt Whitman





Para ti, Lucas 

sábado, 7 de julho de 2012

Separando a erva dos prados


"Separando a erva dos prados, aspirando o seu raro aroma,
Dela reclamo a espiritualidade,
Exijo o mais íntimo e abundante companheirismo entre os homens,
Peço que ergam as suas folhas as palavras, actos, seres,
Esse de límpidos ares, rudes, solares, frescos, férteis,
Esses que traçam o seu próprio caminho, erectos e livres avançando, conduzindo e não conduzidos,
Esses de indomável audácia, de doce e veemente carne sem mácula,
Esses que olham de frente, imperturbáveis, o rosto dos presidentes e governadores como se dissessem Quem és tu?
Esses de natural paixão, simples, nunca constrangidos, insubmissos,
Esses de dentro da América."
Neste caso, de Portugal...

Cálamo, Walt Whitman.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Saudação a Walt Whitman


Abram-me todas as portas!
Por força que hei de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma…
Passo sem explicações…
Se for preciso meto dentro as portas…
Sim — eu, franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui pra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da… se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito…
Pra frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana… Ninguém tem nada com isso…

Álvaro de Campos. In “Saudação a Walt Whitman”

terça-feira, 29 de junho de 2010

Canto de mim mesmo

Creio que podia regressar e viver com os animais, são tão plácidos e autónomos,
Fico a olhar para eles longamente
Não se impacientam, não se lamentam da sua condição,
Não jazem acordados no escuro a chorar os pecados,
Não me maçam com discussões sobre os seus deveres para com Deus,
Nenhum está descontente, nenhum sofre da mania de possuir coisas,
Nenhum se ajoelha perante outro, nem ante os antepassados que viveram há milénios,
Nenhum é respeitável ou infeliz à face da terra.
Revelam a sua relação comigo e aceito-a.
Trazem-me sinais de mim, provam claramente que os contêm em si mesmos.
Pergunto-me onde terão adquirido esses sinais,
Será que em tempos remotos por aí passei deixando-os negligentemente cair?
Walt Whitman